11 de outubro de 2014

Jack, o filósofo

A prisão eterna o consumia vagarosamente enquanto seu desejo por liberdade transformava-se em vontade. Mas o que seria liberdade? O que o diferenciaria de todos os outros corpos ali? Todos tinham a mesma estrutura. Embora não se parecessem tanto, corpo adentro eram a mesma coisa. O que o tornaria tão diferente para merecer a liberdade que almeja?
-Um nome...? - ele pensou - Nenhum de nós tem um nome...
E ele estava certo. Dentre tantos corpos vazios o único diferencial é o nome, o último legado. É o nome que deixamos marcado na história, pois o rosto, a cor de pele, os vícios e até alguns pensamentos serão distorcidos por terceiros, mas nosso nome ficará intacto. Eis a importância de ser identificável por um nome único e inesquecível. E para sair dali, ele autonomeou-se "Vigoroth".
-Você também precisa de um nome. - falava a ela Vigoroth - Vai precisar se quiser vir comigo.
Embora não quisesse abandoná-lo, ela também não queria sair. E colocando os quereres em balanças descobriu ser incapaz de acompanhar uma mudança inovadora, julgando o improvável como impossível.
-Nós não podemos sair daqui. - dizia ela - Fomos criados para isso, você sabe.
-Como pode saber para que fomos criados se nem conhecemos nosso criador?
-Porque... - ficara sem argumentos - nos criaram assim, aqui.
-Como pode ter a certeza de que não fomos criados para procurar nosso criador?
-Você acha que ele nos criou para brincarmos de pique-esconde? Não mesmo!
-Como pode ter tanta certeza de tudo se nunca foi lá fora?
Ela gritou. Assim como os outros, ela não tolerava crer no possível, apenas no acolhedor. Até mesmo a realidade ignorariam se não fosse acolhedora.
Mas Vigoroth era diferente. Talvez ele fosse o primeiro corpo completo rodeado de vazios. Foi por isso que ele fugiu, com sucesso, para fora dali.
Ele encontrou uma pequena brecha na pintura e se esmagou ali, passando por uma série de transformações até se encontrar nu, coberto por uma gosma vermelha, com frio, numa cesta em frente à porta de um orfanato. Ele era um bebê.
As transformações apagaram sua memória, ele chorava, assustado com a escuridão, o movimento das nuvens, o som do vento, o barulho da floresta e tudo o que acontecia à sua volta. A porta se abriu lentamente e uma senhora quase o esmagou ao tropeçar nele.
-Mas o que...?! - berrava a senhora enquanto tombava e pulava para não quebrar o que fosse que estava no chão.
Vigoroth, ainda mais assustado, começou a berrar. Ele acreditava que berrar espantaria o perigo que nem sequer existia. Ele aprenderia mais tarde que estaria mais seguro ali do que em qualquer outro lugar. E apenas três anos depois, suas memórias misteriosamente voltaram. Seu nome, naquele mundo, era Jack, mas ele sabia que não foi o nome que escolhera, mas agora entende o que de fato aconteceu.
O retrato era apenas um lugar onde nossas almas ficam achando que estão vivas.
-Mas e se essa vida também não for real? - perguntou-se Vigoroth, ou Jack, o filósofo.