18 de novembro de 2014

Um dia de dez anos

-Carne fresca!! - gritavam prisioneiros.
-Ééééé!! Fresca até demais! O que um moleque desse faz aqui?!
-Calem-se! - berrou Sérgio, enquanto carregava Jack adentro da prisão de Lintown e atravessava a algazarra das celas - Ele fez algo pior do que seus crimes!
Jack já não tentava negar, embora nada tenha feito. De fato, a ficha ainda não caiu, seu mundo ainda estava se despedaçando. Os outros prisioneiros se entreolharam, pensando sobre o que tal garoto poderia ter feito que fosse pior que estupros, roubos e assassinatos, passando a criar um estranho interesse pelo jovem.
-Aqui não é lugar de criancinha! - berrou Richard - O que vocês pensam que estão fazendo?!
-NÃO É DA SUA CONTA! - retrucou raivosamente Sérgio.
O ódio nos olhos do oficial despertou o medo de muitos, mas não o de Richard, que estava igualmente furioso. Os motivos do detento se resumiam a um único sentimento: saudade. Jack lembrava seu filho, Henry, tomado injustamente por sua ex-esposa, a qual fora brutalmente assassinada por desviar-se das leis. Henry morreu em seus braços após levar tiros do padastro e a reação desta dor foi o genocídio da família que presenciava tal cena.
Por outro lado, Sérgio tratava Amélia como uma mãe, afinal também fora órfão. Conseguiu tornar-se oficial de um campo militar anos depois de ser adotado por uma família de ex-generais, uma situação de extrema raridade. Como todos os desprovidos de pais, Sérgio superou muitos obstáculos - desde peixes grandes que bloqueavam o rio como sereias que o seduziram para o lado oposto da correnteza. E para todos os problemas, Amélia esteve lá. Não somente para ele, para todos os órfãos que já moraram na casa dela. De fato, uma imensa perda.
-Você merecia estar morto! MORTO! - berrava Sérgio, segurando Jack pela camisa.
-Eu não...
-NÃO TEMOS PROVAS, MAS SABEMOS QUE FOI VOCÊ. - continuava ignorante.
Jack se calou. Ele não conseguia sentir culpa por algo que não fez, o que não é bom para sua infância. Se ele passasse a acreditar que matou sua própria "avó" sem sentir nenhum receio, teria o poder de matar qualquer pessoa à sangue frio.
-Este é o jovem? - disse o tenente Victor.
-S-Sim, senhor. - respondeu Sérgio.
-Venha comigo, Jack, vamos decidir em qual cela ficará até o fim do semestre.
-Fim do semestre?
-Você foi sentenciado à 10 anos de prisão. Você não achava que iria ficar na mesma cela por dez anos, certo?
-Na verdade...
-Talvez em outra prisão. Mas na prisão de Lintown, sempre mudamos os prisioneiros de celas a cada semestre para evitarmos quaisquer possibilidades de fuga. Ninguém nunca fugiu daqui, então nem  tente.
-E o que vou fazer?
-Eu só sei que não irá fugir, HA HA HA! - ria insanamente o tenente, caminhando até uma sala ao final do corredor de celas.
-Quem é você? - perguntou Jack.
-Quem é VOCÊ? - retrucou Victor - Quando sair daqui não lembrará de mim e você ainda é uma criança, ainda vai se descobrir na vida. Então pergunte-se primeiro: quem é você?
Jack refletiu, pensando em responder "Eu sou Vigoroth". Mas também sabia que a pergunta ia além de seu verdadeiro nome, exigia o valor absoluto de sua natureza - o que ele também não sabia.
-Eu... Eu não sei. - respondeu Jack.
Victor parou. De todos os prisioneiros que ali apareceram, o garoto fora o primeiro a dar a resposta correta. "Só sei que nada sei" era a principal referência do tenente para a construção dessa pergunta, uma frase presente somente no universo burguês desta era. Como poderia um pobre órfão conhecer tal pensamento? A resposta é: não poderia.
-Gostei de você. - falou Victor, abrindo a porta da sala para que o jovem pudesse passar.
Canetas, papeis, caixas, lamparinas, escrivaninha, amarinhos e uma janela. A primeira visão da sala espantava qualquer criança, mas Jack entrou sem pensar. Enquanto Victor puxava uma caixa para procurar uma ficha de registro de detentos.
-Aqui. Sente-se aí e prepare-se para responder todas as minhas perguntas.
-Certo.
-Seja rápido. - pegava a caneta.
-Tá!
-Nome?
-Jack.
-Jack o quê?
-Jack... - pensava em um sobrenome, pois não tinha - Vigoroth.
-Jack Vigoroth... Idade?
-Oito.
-Oito?! Qual o crime?
-Eu não fiz nada.
-Nada? Você cometeu um crime para estar aqui.
-Eles dizem que matei minha "avó", mas não matei.
-Não posso fazer nada, garoto. - dizia Victor, escrevendo a causa.
-Nome do pai?
-Não sei.
-Nome da mãe?
-Não sei.
-E como sabe o nome de sua avó?!
-Ela não era minha avó de verdade...
-Ah, você era órfão. Desde quando?
-Desde que me lembro.
-Estado civil?
-... - Jack não sabia o que era.
-Ah, desculpa, esqueci que estava falando com uma criança.
-O que é estado civil?
-É... Como posso dizer?... É sobre... Meu deus, não sei explicar.
-Tente dar exemplos.
-Eu sou casado, meu estado civil é casado. Você é solteiro pois nunca casou.
-Ah. E se eu já tivesse casado?
-Poderia ainda ser casado ou viúvo, caso sua esposa falecesse.
-Entendi.
-Dependentes não... Er... Acho que é só isso, Jack.
-Tá, e agora?
-E agora vamos para a cela 8, em homenagem à sua idade.
Até então, Jack estava gostando de aventurar-se pelos cantos do confinamento. Sua cela era uma das primeiras, o que o levou a observar mais uma vez cada detento dali. Homens pobres, alguns fortes, outros nem tanto. Alguns pareciam até guerreiros de tantas cicatrizes, como se sempre arranjassem confusão.
-16, 14, 12, 10... 8! - terminava a contagem Victor - Esta é sua cela, vejamos quem será seu parceiro.
-Parceiro?!
-Sim, você ficará com alguém. Eu não olhei quem era para descobrirmos na hora.
-Mas...
-Não se preocupe. À propósito, sou o Tenente Victor. Se alguma vez precisar, é só chamar.
-Tenente?!
-Sou primo de consideração do Sérgio, logicamente mais velho. Como eu estava por perto, resolvi checar as coisas e tomar conta do local para que ele possa ficar de luto.
-Entendi.
-Por hoje deixaremos você usar essa roupa, pois não temos nenhuma para o seu tamanho, mas estamos providenciando.
-Victor. - uma voz chamava-o da cela oito.
-O-oi! - gaguejava-se ao levar um susto.
-Esse moleque irá ficar comigo?
-...Jack, esse é o Stevie.
-Prazer, Stevie, eu sou...
-Jack! Que nome mais simples! - interrompeu Stevie - Quantas pessoas pretende matar quando crescer?
-Stevie, pare!
-Se ele vai ficar aqui, pretendo conversar de assuntos que gosto.
-Deixe ele comigo! - berrava o detento da cela 9, em frente à 8.
-É, talvez seja melhor você ficar na cela nove, Jack... - falava Victor. - Esse aqui pode acabar te matando.
Quando o detento caminhou em direção às luzes do corredor, seu rosto ficou mais claro e um desconhecido de cabelos escuros e encaracolados, de nariz torto e olhos azuis pareceu ser sua melhor opção. Ele não demonstrava perigo, nem sequer parecia merecer estar ali. Em silêncio, Victor abriu a cela nove e mandou que Jack entrasse, sem saber o que aconteceria quando estivesse finalmente preso. O ar ficou pesado e uma estranha sensação de cometer um erro tomava conta do pequeno prisioneiro de Lintown.
-Eu sou Júlio.
-O-oi...
Era uma cela pequena, de camas afastadas e uma pia-privada no fundo. Sem mais nada, Jack previa um tédio profundo que iria durar dez anos. Infelizmente, não poderia fazer nada.
-E aí, o que você fez? - perguntou Júlio.
-Eu matei minha avó.
-Sua avó? Entendo. Eu matei meus pais.
-Seus pais?!
-Já faz 3 anos. Nunca me arrependi tanto de algo que já fiz... Se eu pudesse voltar atrás...
-Se simplesmente voltasse, nunca saberia o que é perder os pais.
-Eu sei mas...
-Eu não sei o que é ter pais.
-Cresceu com a avó?
-Não era minha avó de verdade. Eu cresci num orfanato.
-Ah. Então deve ter sido mais fácil.
-Não! Ela era a única coisa que eu tinha...
-Mal foi preso e já está arrependido?
-Não... Porque eu não matei ninguém...
-Mas você acabou de...
-Não! - interrompeu Jack - Eu quis dizer que me prenderam por achar isso.
-Mas eu perguntei o que você fez!
-Eu procurei pelo assassino e não o achei! Quando voltei, o policial me prendeu achando que teria sido eu!
-Putz, hahaha, que azar!
-Não ria!
-Hahahahahahahaha. Relaxa, cara. Não vai ser tão ruim. - Júlio levantou-se de sua cama para ir ao do colega - Nós seremos bons amigos, não?

. . .

Mais tarde, na madrugada daquele dia, Jack gritou por Victor. Gritou muito, em completo desespero. Perdendo ainda mais de sua inocência em uma terrível noite de estupros, seu ódio pelo ser humano fora ainda mais alimentado conforme seus sentimentos eram traídos. E este era apenas um dia de dez anos de sentença.

17 de novembro de 2014

O prisioneiro de Lintown

Jack mostrou-se como uma criança incrível, de brilhante futuro. Estar num orfanato diminuía suas possibilidades com a sociedade, numa era onde pobres morrem pobres. Entretanto, entre anjos e demônios sempre irão existir aqueles cujas crenças não se baseiam em riquezas e conquistas. Uma dessas pessoas era a senhora Amélia, a dona do orfanato. Naquela era, as pessoas menosprezavam quaisquer crianças desprovidas de família, como se elas merecessem tal culpa. Jack notara que a vida era um pouco mais cruel ali do que no retrato, com razão, pois lá todos se cuidavam muito bem, enquanto ali viviam sob o mal alheio.
Sentir o vento, o sol, as gotas de chuva e o cheiro de terra molhada traziam sensações antes impossíveis de se sentir, o que fizera Jack se apaixonar por aquele mundo, mal sabendo que essa seria a menor das paixões que conheceria naquela vida. E era num misto de sol e chuva que um dos acontecimentos mais marcantes de sua vida aconteceu.
-Jack! Jack! Comece a colocar a mesa do almoço e vai chamar seus irmãos lá fora! - berrou Amélia da cozinha, enquanto Jack a ignorava na sala. - Jack!! Responda, menino!
Apesar de amar a natureza, Jack não gostava das crianças por serem cruéis. Porém, ele não as culpa, cresceram sob o mal-olhar de uma sociedade que alimenta-se de ódio. "Respeito gera respeito", lembrava-se Jack de uma fala constante de sua dona, Amélia. Ele sabia que ela tinha toda a razão ao falar desse jeito, porém são verdades de tempos diferentes.
-Jack!! Se você não arrumar a mesa e chamar seus irmãos irá ficar sem almoço! - berrou mais uma vez Amélia.
-Tá! - respondeu Jack, levantando-se do sofá para arrumar a mesa.
"O respeito só gera respeito quando ambas as partes o desejam." - encerrou seus pensamentos.
Ele estava para completar oito anos e sabia que o almoço seria especial por esta causa. Mas não entendia porque ele, o aniversariante, teria de arrumar a mesa. Era o mais velho entre cinco crianças, mesmo não sendo sempre assim. Paulo e Lucas eram gêmeos siameses de 4 anos, Letícia, Joana e Virgínia eram apenas amigas de 3, 5 e 7 anos, respectivamente. Os meninos irritavam Jack dizendo que ele iria se casar com Virgínia, mesmo ele não se interessando nisso. Porém, ele se incomodara com o fato da garota ser tão parecida com seu par no quadro, não somente nas aparências, mas também no olhar e no modo de falar.
-Vó! - gritou Jack, como sempre chamara Amélia - Estou indo chamar os outros!
As crianças estavam numa rua próxima dali e ele sempre levava bronca por sair e deixar a porta aberta. Desta vez, entretanto, ao voltar com as crianças, se depararam uma cena inesquecível.
-Vó!!!! - berrava Jack.
Dona Amélia estava morta. Golpes de faca, seis ao total. As outras crianças viraram estátuas, enquanto Jack procurava pelo assassino mesmo completamente desarmado. Quando Paulo e Lucas começaram a chorar, não levou muitos segundos para todos começarem a gritar e cair em prantos. A cavalaria da polícia passava por ali e notara o barulho na casa.
-O que está... - falava o oficial Sérgio, interrompido pelo choque ao ver a cena - ...Meu deus! Flávio, corra para a delegacia e chame uma patrulha!
-Sim, senhor! - partiu à cavalo Flávio, o ajudante do oficial.
-Crianças, o que houve aqui? - tentava interrogar, sem sucesso, pois nenhuma delas conseguia falar.
Aí então que surgiu Jack, dos fundos, com o olhar furioso de alguém que pretendia matar outra pessoa. Esse olhar mal compreendido fez o oficial crer que o jovem filósofo teria planejado aquela morte, imediatamente agindo para prender o pequeno suspeito.
-O que está fazendo?! - perguntava Jack, enquanto era algemado.
-Você está preso!!! Como pôde fazer isso?! Dona Amélia era uma pessoa ótima para todos!! Ela respeitava a todos!! - berrava o oficial, controlando a vontade de puxar sua espada militar e vingar a morte da senhora - Você vai pagar!! Vai passar o resto da sua vida na cadeia!
-Mas eu não fiz nada!!! - berrava Jack - Contem a ele!! Contem a ele!! - pedia o apoio das crianças.
-Jack... - falava Virgínia - Você estava sozinho com ela...
Então Jack percebeu que não teria escapatória. Foi o último a vê-la viva, inteira, então seria natural que a culpa caísse sobre sua cabeça. Naquela era, ninguém perderia seu tempo investigando a inocência de uma criança sem pais, sem um sobrenome importante. Qualquer culpado serviria, ele somente acabou, por azar, sendo o mais convincente. Todo o seu destino mudou naquele misto de sol e chuva em que fora levado à força para uma prisão. O mais jovem prisioneiro de Lintown.