5 de dezembro de 2014

O nascimento do Justiceiro

Oitos anos se passaram desde que a vida de Jack mudou, nem parecia ser mais um humano. As crueldades que ali existiam não eram impedidas por ninguém: quem poderia, não se incomodava - quem se incomodava, morreria. Estava em um território "sem leis", onde ironicamente fora largado por elas e  aprendia a conviver com seu ódio. Entretanto, seu ex-parceiro de cela, Júlio, já estava morto. Jack o assassinara quando teve sua oportunidade aos doze anos, quando o atraiu para o banheiro do final do corredor na hora da janta. Júlio achava que o teria transformado num escravo sexual, mas na verdade criara um monstro. Jack Vi, como chamavam-no, era um nome temido em Lintown. Sua pena na cadeia não aumentou pois só poderia ficar preso até os dezoito anos.
Ninguém o visitava, não tinha família e o mais próximo de amigo que teria era um louco chamado Richard, aquele homem que assassinou uma família inteira para vingar seu filho, Henry. Mas Jack não se importaria se ele morresse a qualquer momento. J.V. já percebera que tudo o que vive morrerá um dia e que não adiantaria se magoar com isso.
-ATENÇÃO! - berrava Sérgio, o oficial que colocou Jack na prisão. -Vocês vão fazer uma atividade incomum hoje!
Os presos se levantavam animados, pois iriam sair das mesmices do dia-a-dia. Jack, entretanto, pensava se teria alguma oportunidade de matar o oficial. Ele o culpava por tudo que vivera ali.
-Vocês vão para a guerra! - berrou Sérgio, enquanto a agitação de todos desaparecia - Se vocês quiserem viver, matem o exército inimigo! São nosso último recurso!
-O que houve com os soldados?! - berrou Richard, enquanto Jack começava a rir.
-?! - os prisioneiros ficavam confusos e com medo.
-Vocês vão me dar uma arma? - perguntou Jack, sorrindo friamente.
-Não.
-Como quer que eu lute numa guerra?
-Você pode ir para morrer, isto serve. - respondia com desgosto.
A conversa encerrou-se por aí, mas Vigoroth sabia que não ficaria desarmado. Ele poderia matar alguém e roubar sua arma. Sem conhecer o inimigo, ele aceitou o desafio sem medo, o que acabou encorajando os outros presidiários.
Num dos camburões que os levariam até o ponto de partida, Jack estava completamente acorrentado. Era tratado como o prisioneiro mais perigoso dali, mesmo não representando perigo algum. A causa disso é o número de mortes que aconteceram na prisão desde que soubera que não teria sua pena aumentada por matar prisioneiros. Acabou virando um passa-tempo: todo novato que virava seu companheiro de cela estaria morto no dia seguinte se lhe faltasse o respeito ou parecesse injusto. Ele não tolerava piadas, nem sequer mal-olhar. Por padrão, poucos segundos eram suficientes para que Jack julgasse seus parceiros como incapazes e tomasse a decisão de fatiar seus corpos. Mutilação era o que mais sabia fazer, embora não saiba onde aprendera.
-PULE!! PULE AGORA!!! - berrou o motorista com o camburão ainda em movimento.
-EU ESTOU ACORRENTADO! - gritou Jack.
E então Jack notou que o motorista já tinha pulado do camburão, o que era um péssimo sinal. Ao se esforçar para sentar reparou que havia um tanque inimigo rondando próximo ao veículo e que em poucos instantes ele seria um alvo fácil. Não havia o que fazer pois ele mal conseguia se mexer, tão pouco poderia arrombar um camburão pelo lado de dentro. Sua única esperança era que o carro batesse em alguma coisa e parasse.
-Vamos... Vamos... Alguma coisa... Qualquer coisa... - cochichava Jack.
E, repentinamente, o veículo apagou. Continuava andando, mas parava aos poucos. Ele ouvia soldados inimigos se aproximando e gritando, ele sabia que eles não esperavam ter uma pessoa ali dentro. Pelos gritos, reconheceu que eles tinham medo de que fosse um carro-bomba e que demorariam para encontrá-lo. Ele precisava se livrar das correntes sem se balançar muito.
Parecia impossível sair dali sem nenhum tipo de arma consigo, mas conseguiu se soltar imprensando suas mãos e deixando a corrente o mais folgada possível.
-Agora os pés... - cochichava, observando o movimento inimigo se aproximando. - O que vou fazer? Sou um prisioneiro, não um ninja...
E quando um deles estava quase ao lado do camburão, tiros de metralhadora mataram vários dos que estavam por ali, gerando confusão e alvoroço. Era sua chance para arrombar e sair do camburão.
-Jack!! - berrava Richard, aproximando-se.
-Você me salvou... - disse Jack.
-Fale isso se vencermos, se não não vai ter adian... - um tiro na testa silenciava Richard, espalhando seus miolos pela terra.
Jack estava perplexo. Fora a primeira vez que viu alguém morrer sorrindo. Aquela expressão o teria acolhido por oito anos como um filho e só agora ele percebeu. Era tarde demais.
-Ric... - cochichava Jack - Rick... Eu vou te vingar. - ajoelhava-se Jack, respeitando o corpo de seu primeiro pai e pegando sua metralhadora. - EU VOU TE VINGAR!