5 de dezembro de 2014

O nascimento do Justiceiro

Oitos anos se passaram desde que a vida de Jack mudou, nem parecia ser mais um humano. As crueldades que ali existiam não eram impedidas por ninguém: quem poderia, não se incomodava - quem se incomodava, morreria. Estava em um território "sem leis", onde ironicamente fora largado por elas e  aprendia a conviver com seu ódio. Entretanto, seu ex-parceiro de cela, Júlio, já estava morto. Jack o assassinara quando teve sua oportunidade aos doze anos, quando o atraiu para o banheiro do final do corredor na hora da janta. Júlio achava que o teria transformado num escravo sexual, mas na verdade criara um monstro. Jack Vi, como chamavam-no, era um nome temido em Lintown. Sua pena na cadeia não aumentou pois só poderia ficar preso até os dezoito anos.
Ninguém o visitava, não tinha família e o mais próximo de amigo que teria era um louco chamado Richard, aquele homem que assassinou uma família inteira para vingar seu filho, Henry. Mas Jack não se importaria se ele morresse a qualquer momento. J.V. já percebera que tudo o que vive morrerá um dia e que não adiantaria se magoar com isso.
-ATENÇÃO! - berrava Sérgio, o oficial que colocou Jack na prisão. -Vocês vão fazer uma atividade incomum hoje!
Os presos se levantavam animados, pois iriam sair das mesmices do dia-a-dia. Jack, entretanto, pensava se teria alguma oportunidade de matar o oficial. Ele o culpava por tudo que vivera ali.
-Vocês vão para a guerra! - berrou Sérgio, enquanto a agitação de todos desaparecia - Se vocês quiserem viver, matem o exército inimigo! São nosso último recurso!
-O que houve com os soldados?! - berrou Richard, enquanto Jack começava a rir.
-?! - os prisioneiros ficavam confusos e com medo.
-Vocês vão me dar uma arma? - perguntou Jack, sorrindo friamente.
-Não.
-Como quer que eu lute numa guerra?
-Você pode ir para morrer, isto serve. - respondia com desgosto.
A conversa encerrou-se por aí, mas Vigoroth sabia que não ficaria desarmado. Ele poderia matar alguém e roubar sua arma. Sem conhecer o inimigo, ele aceitou o desafio sem medo, o que acabou encorajando os outros presidiários.
Num dos camburões que os levariam até o ponto de partida, Jack estava completamente acorrentado. Era tratado como o prisioneiro mais perigoso dali, mesmo não representando perigo algum. A causa disso é o número de mortes que aconteceram na prisão desde que soubera que não teria sua pena aumentada por matar prisioneiros. Acabou virando um passa-tempo: todo novato que virava seu companheiro de cela estaria morto no dia seguinte se lhe faltasse o respeito ou parecesse injusto. Ele não tolerava piadas, nem sequer mal-olhar. Por padrão, poucos segundos eram suficientes para que Jack julgasse seus parceiros como incapazes e tomasse a decisão de fatiar seus corpos. Mutilação era o que mais sabia fazer, embora não saiba onde aprendera.
-PULE!! PULE AGORA!!! - berrou o motorista com o camburão ainda em movimento.
-EU ESTOU ACORRENTADO! - gritou Jack.
E então Jack notou que o motorista já tinha pulado do camburão, o que era um péssimo sinal. Ao se esforçar para sentar reparou que havia um tanque inimigo rondando próximo ao veículo e que em poucos instantes ele seria um alvo fácil. Não havia o que fazer pois ele mal conseguia se mexer, tão pouco poderia arrombar um camburão pelo lado de dentro. Sua única esperança era que o carro batesse em alguma coisa e parasse.
-Vamos... Vamos... Alguma coisa... Qualquer coisa... - cochichava Jack.
E, repentinamente, o veículo apagou. Continuava andando, mas parava aos poucos. Ele ouvia soldados inimigos se aproximando e gritando, ele sabia que eles não esperavam ter uma pessoa ali dentro. Pelos gritos, reconheceu que eles tinham medo de que fosse um carro-bomba e que demorariam para encontrá-lo. Ele precisava se livrar das correntes sem se balançar muito.
Parecia impossível sair dali sem nenhum tipo de arma consigo, mas conseguiu se soltar imprensando suas mãos e deixando a corrente o mais folgada possível.
-Agora os pés... - cochichava, observando o movimento inimigo se aproximando. - O que vou fazer? Sou um prisioneiro, não um ninja...
E quando um deles estava quase ao lado do camburão, tiros de metralhadora mataram vários dos que estavam por ali, gerando confusão e alvoroço. Era sua chance para arrombar e sair do camburão.
-Jack!! - berrava Richard, aproximando-se.
-Você me salvou... - disse Jack.
-Fale isso se vencermos, se não não vai ter adian... - um tiro na testa silenciava Richard, espalhando seus miolos pela terra.
Jack estava perplexo. Fora a primeira vez que viu alguém morrer sorrindo. Aquela expressão o teria acolhido por oito anos como um filho e só agora ele percebeu. Era tarde demais.
-Ric... - cochichava Jack - Rick... Eu vou te vingar. - ajoelhava-se Jack, respeitando o corpo de seu primeiro pai e pegando sua metralhadora. - EU VOU TE VINGAR!

18 de novembro de 2014

Um dia de dez anos

-Carne fresca!! - gritavam prisioneiros.
-Ééééé!! Fresca até demais! O que um moleque desse faz aqui?!
-Calem-se! - berrou Sérgio, enquanto carregava Jack adentro da prisão de Lintown e atravessava a algazarra das celas - Ele fez algo pior do que seus crimes!
Jack já não tentava negar, embora nada tenha feito. De fato, a ficha ainda não caiu, seu mundo ainda estava se despedaçando. Os outros prisioneiros se entreolharam, pensando sobre o que tal garoto poderia ter feito que fosse pior que estupros, roubos e assassinatos, passando a criar um estranho interesse pelo jovem.
-Aqui não é lugar de criancinha! - berrou Richard - O que vocês pensam que estão fazendo?!
-NÃO É DA SUA CONTA! - retrucou raivosamente Sérgio.
O ódio nos olhos do oficial despertou o medo de muitos, mas não o de Richard, que estava igualmente furioso. Os motivos do detento se resumiam a um único sentimento: saudade. Jack lembrava seu filho, Henry, tomado injustamente por sua ex-esposa, a qual fora brutalmente assassinada por desviar-se das leis. Henry morreu em seus braços após levar tiros do padastro e a reação desta dor foi o genocídio da família que presenciava tal cena.
Por outro lado, Sérgio tratava Amélia como uma mãe, afinal também fora órfão. Conseguiu tornar-se oficial de um campo militar anos depois de ser adotado por uma família de ex-generais, uma situação de extrema raridade. Como todos os desprovidos de pais, Sérgio superou muitos obstáculos - desde peixes grandes que bloqueavam o rio como sereias que o seduziram para o lado oposto da correnteza. E para todos os problemas, Amélia esteve lá. Não somente para ele, para todos os órfãos que já moraram na casa dela. De fato, uma imensa perda.
-Você merecia estar morto! MORTO! - berrava Sérgio, segurando Jack pela camisa.
-Eu não...
-NÃO TEMOS PROVAS, MAS SABEMOS QUE FOI VOCÊ. - continuava ignorante.
Jack se calou. Ele não conseguia sentir culpa por algo que não fez, o que não é bom para sua infância. Se ele passasse a acreditar que matou sua própria "avó" sem sentir nenhum receio, teria o poder de matar qualquer pessoa à sangue frio.
-Este é o jovem? - disse o tenente Victor.
-S-Sim, senhor. - respondeu Sérgio.
-Venha comigo, Jack, vamos decidir em qual cela ficará até o fim do semestre.
-Fim do semestre?
-Você foi sentenciado à 10 anos de prisão. Você não achava que iria ficar na mesma cela por dez anos, certo?
-Na verdade...
-Talvez em outra prisão. Mas na prisão de Lintown, sempre mudamos os prisioneiros de celas a cada semestre para evitarmos quaisquer possibilidades de fuga. Ninguém nunca fugiu daqui, então nem  tente.
-E o que vou fazer?
-Eu só sei que não irá fugir, HA HA HA! - ria insanamente o tenente, caminhando até uma sala ao final do corredor de celas.
-Quem é você? - perguntou Jack.
-Quem é VOCÊ? - retrucou Victor - Quando sair daqui não lembrará de mim e você ainda é uma criança, ainda vai se descobrir na vida. Então pergunte-se primeiro: quem é você?
Jack refletiu, pensando em responder "Eu sou Vigoroth". Mas também sabia que a pergunta ia além de seu verdadeiro nome, exigia o valor absoluto de sua natureza - o que ele também não sabia.
-Eu... Eu não sei. - respondeu Jack.
Victor parou. De todos os prisioneiros que ali apareceram, o garoto fora o primeiro a dar a resposta correta. "Só sei que nada sei" era a principal referência do tenente para a construção dessa pergunta, uma frase presente somente no universo burguês desta era. Como poderia um pobre órfão conhecer tal pensamento? A resposta é: não poderia.
-Gostei de você. - falou Victor, abrindo a porta da sala para que o jovem pudesse passar.
Canetas, papeis, caixas, lamparinas, escrivaninha, amarinhos e uma janela. A primeira visão da sala espantava qualquer criança, mas Jack entrou sem pensar. Enquanto Victor puxava uma caixa para procurar uma ficha de registro de detentos.
-Aqui. Sente-se aí e prepare-se para responder todas as minhas perguntas.
-Certo.
-Seja rápido. - pegava a caneta.
-Tá!
-Nome?
-Jack.
-Jack o quê?
-Jack... - pensava em um sobrenome, pois não tinha - Vigoroth.
-Jack Vigoroth... Idade?
-Oito.
-Oito?! Qual o crime?
-Eu não fiz nada.
-Nada? Você cometeu um crime para estar aqui.
-Eles dizem que matei minha "avó", mas não matei.
-Não posso fazer nada, garoto. - dizia Victor, escrevendo a causa.
-Nome do pai?
-Não sei.
-Nome da mãe?
-Não sei.
-E como sabe o nome de sua avó?!
-Ela não era minha avó de verdade...
-Ah, você era órfão. Desde quando?
-Desde que me lembro.
-Estado civil?
-... - Jack não sabia o que era.
-Ah, desculpa, esqueci que estava falando com uma criança.
-O que é estado civil?
-É... Como posso dizer?... É sobre... Meu deus, não sei explicar.
-Tente dar exemplos.
-Eu sou casado, meu estado civil é casado. Você é solteiro pois nunca casou.
-Ah. E se eu já tivesse casado?
-Poderia ainda ser casado ou viúvo, caso sua esposa falecesse.
-Entendi.
-Dependentes não... Er... Acho que é só isso, Jack.
-Tá, e agora?
-E agora vamos para a cela 8, em homenagem à sua idade.
Até então, Jack estava gostando de aventurar-se pelos cantos do confinamento. Sua cela era uma das primeiras, o que o levou a observar mais uma vez cada detento dali. Homens pobres, alguns fortes, outros nem tanto. Alguns pareciam até guerreiros de tantas cicatrizes, como se sempre arranjassem confusão.
-16, 14, 12, 10... 8! - terminava a contagem Victor - Esta é sua cela, vejamos quem será seu parceiro.
-Parceiro?!
-Sim, você ficará com alguém. Eu não olhei quem era para descobrirmos na hora.
-Mas...
-Não se preocupe. À propósito, sou o Tenente Victor. Se alguma vez precisar, é só chamar.
-Tenente?!
-Sou primo de consideração do Sérgio, logicamente mais velho. Como eu estava por perto, resolvi checar as coisas e tomar conta do local para que ele possa ficar de luto.
-Entendi.
-Por hoje deixaremos você usar essa roupa, pois não temos nenhuma para o seu tamanho, mas estamos providenciando.
-Victor. - uma voz chamava-o da cela oito.
-O-oi! - gaguejava-se ao levar um susto.
-Esse moleque irá ficar comigo?
-...Jack, esse é o Stevie.
-Prazer, Stevie, eu sou...
-Jack! Que nome mais simples! - interrompeu Stevie - Quantas pessoas pretende matar quando crescer?
-Stevie, pare!
-Se ele vai ficar aqui, pretendo conversar de assuntos que gosto.
-Deixe ele comigo! - berrava o detento da cela 9, em frente à 8.
-É, talvez seja melhor você ficar na cela nove, Jack... - falava Victor. - Esse aqui pode acabar te matando.
Quando o detento caminhou em direção às luzes do corredor, seu rosto ficou mais claro e um desconhecido de cabelos escuros e encaracolados, de nariz torto e olhos azuis pareceu ser sua melhor opção. Ele não demonstrava perigo, nem sequer parecia merecer estar ali. Em silêncio, Victor abriu a cela nove e mandou que Jack entrasse, sem saber o que aconteceria quando estivesse finalmente preso. O ar ficou pesado e uma estranha sensação de cometer um erro tomava conta do pequeno prisioneiro de Lintown.
-Eu sou Júlio.
-O-oi...
Era uma cela pequena, de camas afastadas e uma pia-privada no fundo. Sem mais nada, Jack previa um tédio profundo que iria durar dez anos. Infelizmente, não poderia fazer nada.
-E aí, o que você fez? - perguntou Júlio.
-Eu matei minha avó.
-Sua avó? Entendo. Eu matei meus pais.
-Seus pais?!
-Já faz 3 anos. Nunca me arrependi tanto de algo que já fiz... Se eu pudesse voltar atrás...
-Se simplesmente voltasse, nunca saberia o que é perder os pais.
-Eu sei mas...
-Eu não sei o que é ter pais.
-Cresceu com a avó?
-Não era minha avó de verdade. Eu cresci num orfanato.
-Ah. Então deve ter sido mais fácil.
-Não! Ela era a única coisa que eu tinha...
-Mal foi preso e já está arrependido?
-Não... Porque eu não matei ninguém...
-Mas você acabou de...
-Não! - interrompeu Jack - Eu quis dizer que me prenderam por achar isso.
-Mas eu perguntei o que você fez!
-Eu procurei pelo assassino e não o achei! Quando voltei, o policial me prendeu achando que teria sido eu!
-Putz, hahaha, que azar!
-Não ria!
-Hahahahahahahaha. Relaxa, cara. Não vai ser tão ruim. - Júlio levantou-se de sua cama para ir ao do colega - Nós seremos bons amigos, não?

. . .

Mais tarde, na madrugada daquele dia, Jack gritou por Victor. Gritou muito, em completo desespero. Perdendo ainda mais de sua inocência em uma terrível noite de estupros, seu ódio pelo ser humano fora ainda mais alimentado conforme seus sentimentos eram traídos. E este era apenas um dia de dez anos de sentença.

17 de novembro de 2014

O prisioneiro de Lintown

Jack mostrou-se como uma criança incrível, de brilhante futuro. Estar num orfanato diminuía suas possibilidades com a sociedade, numa era onde pobres morrem pobres. Entretanto, entre anjos e demônios sempre irão existir aqueles cujas crenças não se baseiam em riquezas e conquistas. Uma dessas pessoas era a senhora Amélia, a dona do orfanato. Naquela era, as pessoas menosprezavam quaisquer crianças desprovidas de família, como se elas merecessem tal culpa. Jack notara que a vida era um pouco mais cruel ali do que no retrato, com razão, pois lá todos se cuidavam muito bem, enquanto ali viviam sob o mal alheio.
Sentir o vento, o sol, as gotas de chuva e o cheiro de terra molhada traziam sensações antes impossíveis de se sentir, o que fizera Jack se apaixonar por aquele mundo, mal sabendo que essa seria a menor das paixões que conheceria naquela vida. E era num misto de sol e chuva que um dos acontecimentos mais marcantes de sua vida aconteceu.
-Jack! Jack! Comece a colocar a mesa do almoço e vai chamar seus irmãos lá fora! - berrou Amélia da cozinha, enquanto Jack a ignorava na sala. - Jack!! Responda, menino!
Apesar de amar a natureza, Jack não gostava das crianças por serem cruéis. Porém, ele não as culpa, cresceram sob o mal-olhar de uma sociedade que alimenta-se de ódio. "Respeito gera respeito", lembrava-se Jack de uma fala constante de sua dona, Amélia. Ele sabia que ela tinha toda a razão ao falar desse jeito, porém são verdades de tempos diferentes.
-Jack!! Se você não arrumar a mesa e chamar seus irmãos irá ficar sem almoço! - berrou mais uma vez Amélia.
-Tá! - respondeu Jack, levantando-se do sofá para arrumar a mesa.
"O respeito só gera respeito quando ambas as partes o desejam." - encerrou seus pensamentos.
Ele estava para completar oito anos e sabia que o almoço seria especial por esta causa. Mas não entendia porque ele, o aniversariante, teria de arrumar a mesa. Era o mais velho entre cinco crianças, mesmo não sendo sempre assim. Paulo e Lucas eram gêmeos siameses de 4 anos, Letícia, Joana e Virgínia eram apenas amigas de 3, 5 e 7 anos, respectivamente. Os meninos irritavam Jack dizendo que ele iria se casar com Virgínia, mesmo ele não se interessando nisso. Porém, ele se incomodara com o fato da garota ser tão parecida com seu par no quadro, não somente nas aparências, mas também no olhar e no modo de falar.
-Vó! - gritou Jack, como sempre chamara Amélia - Estou indo chamar os outros!
As crianças estavam numa rua próxima dali e ele sempre levava bronca por sair e deixar a porta aberta. Desta vez, entretanto, ao voltar com as crianças, se depararam uma cena inesquecível.
-Vó!!!! - berrava Jack.
Dona Amélia estava morta. Golpes de faca, seis ao total. As outras crianças viraram estátuas, enquanto Jack procurava pelo assassino mesmo completamente desarmado. Quando Paulo e Lucas começaram a chorar, não levou muitos segundos para todos começarem a gritar e cair em prantos. A cavalaria da polícia passava por ali e notara o barulho na casa.
-O que está... - falava o oficial Sérgio, interrompido pelo choque ao ver a cena - ...Meu deus! Flávio, corra para a delegacia e chame uma patrulha!
-Sim, senhor! - partiu à cavalo Flávio, o ajudante do oficial.
-Crianças, o que houve aqui? - tentava interrogar, sem sucesso, pois nenhuma delas conseguia falar.
Aí então que surgiu Jack, dos fundos, com o olhar furioso de alguém que pretendia matar outra pessoa. Esse olhar mal compreendido fez o oficial crer que o jovem filósofo teria planejado aquela morte, imediatamente agindo para prender o pequeno suspeito.
-O que está fazendo?! - perguntava Jack, enquanto era algemado.
-Você está preso!!! Como pôde fazer isso?! Dona Amélia era uma pessoa ótima para todos!! Ela respeitava a todos!! - berrava o oficial, controlando a vontade de puxar sua espada militar e vingar a morte da senhora - Você vai pagar!! Vai passar o resto da sua vida na cadeia!
-Mas eu não fiz nada!!! - berrava Jack - Contem a ele!! Contem a ele!! - pedia o apoio das crianças.
-Jack... - falava Virgínia - Você estava sozinho com ela...
Então Jack percebeu que não teria escapatória. Foi o último a vê-la viva, inteira, então seria natural que a culpa caísse sobre sua cabeça. Naquela era, ninguém perderia seu tempo investigando a inocência de uma criança sem pais, sem um sobrenome importante. Qualquer culpado serviria, ele somente acabou, por azar, sendo o mais convincente. Todo o seu destino mudou naquele misto de sol e chuva em que fora levado à força para uma prisão. O mais jovem prisioneiro de Lintown.

11 de outubro de 2014

Jack, o filósofo

A prisão eterna o consumia vagarosamente enquanto seu desejo por liberdade transformava-se em vontade. Mas o que seria liberdade? O que o diferenciaria de todos os outros corpos ali? Todos tinham a mesma estrutura. Embora não se parecessem tanto, corpo adentro eram a mesma coisa. O que o tornaria tão diferente para merecer a liberdade que almeja?
-Um nome...? - ele pensou - Nenhum de nós tem um nome...
E ele estava certo. Dentre tantos corpos vazios o único diferencial é o nome, o último legado. É o nome que deixamos marcado na história, pois o rosto, a cor de pele, os vícios e até alguns pensamentos serão distorcidos por terceiros, mas nosso nome ficará intacto. Eis a importância de ser identificável por um nome único e inesquecível. E para sair dali, ele autonomeou-se "Vigoroth".
-Você também precisa de um nome. - falava a ela Vigoroth - Vai precisar se quiser vir comigo.
Embora não quisesse abandoná-lo, ela também não queria sair. E colocando os quereres em balanças descobriu ser incapaz de acompanhar uma mudança inovadora, julgando o improvável como impossível.
-Nós não podemos sair daqui. - dizia ela - Fomos criados para isso, você sabe.
-Como pode saber para que fomos criados se nem conhecemos nosso criador?
-Porque... - ficara sem argumentos - nos criaram assim, aqui.
-Como pode ter a certeza de que não fomos criados para procurar nosso criador?
-Você acha que ele nos criou para brincarmos de pique-esconde? Não mesmo!
-Como pode ter tanta certeza de tudo se nunca foi lá fora?
Ela gritou. Assim como os outros, ela não tolerava crer no possível, apenas no acolhedor. Até mesmo a realidade ignorariam se não fosse acolhedora.
Mas Vigoroth era diferente. Talvez ele fosse o primeiro corpo completo rodeado de vazios. Foi por isso que ele fugiu, com sucesso, para fora dali.
Ele encontrou uma pequena brecha na pintura e se esmagou ali, passando por uma série de transformações até se encontrar nu, coberto por uma gosma vermelha, com frio, numa cesta em frente à porta de um orfanato. Ele era um bebê.
As transformações apagaram sua memória, ele chorava, assustado com a escuridão, o movimento das nuvens, o som do vento, o barulho da floresta e tudo o que acontecia à sua volta. A porta se abriu lentamente e uma senhora quase o esmagou ao tropeçar nele.
-Mas o que...?! - berrava a senhora enquanto tombava e pulava para não quebrar o que fosse que estava no chão.
Vigoroth, ainda mais assustado, começou a berrar. Ele acreditava que berrar espantaria o perigo que nem sequer existia. Ele aprenderia mais tarde que estaria mais seguro ali do que em qualquer outro lugar. E apenas três anos depois, suas memórias misteriosamente voltaram. Seu nome, naquele mundo, era Jack, mas ele sabia que não foi o nome que escolhera, mas agora entende o que de fato aconteceu.
O retrato era apenas um lugar onde nossas almas ficam achando que estão vivas.
-Mas e se essa vida também não for real? - perguntou-se Vigoroth, ou Jack, o filósofo.

11 de setembro de 2014

Retrato

Ele a olhava nos olhos com tanta profundidade e enxergava apenas a fina camada de seu exterior.
-O que mudou? - há tempos ele se perguntava.
A amarga sensação de não ser mais tão especial o deixava triste, embora não queira tentar mais nada. O cansaço já o consumiu, por isso apenas esperava que a sensação se provasse real para tomar medidas drásticas. E à medida que explorava seu novo universo, afastava-se do dela.
Aos poucos ele entendia o quão limitado era o seu mundo e que a liberdade era somente uma ilusão. Sempre fora assim, reflexivo, mas nunca reparara que até mesmo as mentes mais insanas vivem suas próprias prisões. Talvez ela tenha se libertado, mas ao fazer isso perde-se o apoio próprio.
Ele queria agir como todos os outros corpos que acreditavam firmemente que viviam um retrato perfeito sem saber quem os pintou.
-Por que nossos quadros estão desse jeito? Por que não os outros? - ele se perguntava.
E que boa dúvida era, preocupar-se sobre seu papel naquela parede traria toda uma referência do porquê de sua existência. Mas é muito simples: ele tem a boa vida para embelezar um muro.
-Então sua existência tem como único objetivo melhorar um muro? - perguntou ela - E quanto a mim?
-Somos apenas corpos num muro. Somos apenas retratos.
-Mas vivemos bem!
-É natural achar isso sem ter conhecido nada melhor. Eu quero ser livre, ter a liberdade de conhecer cantos além desta parede.
E apesar de ela não o entender, ficou em silêncio para não decepcioná-lo. Ele acreditava nessa possibilidade de lutar com todas as forças e conseguir sair dali. Ele queria fugir.
Mas sem os corpos, o que seria dos retratos?

9 de setembro de 2014

Rabiscos

Para toda imagem existe um reflexo, logo a complexidade do mal depende da dificuldade de obter-se o bem. Essa foi uma das lições que ele aprendeu ao imergir-se em sua nova escolha: o esforço contínuo de hoje resultará no alto grau de satisfação do amanhã. Atentou-se, no entanto, que embora isso pareça necessidade de exercer um papel definitivo, ele não pode parar de distribuir e encontrar novos sorrisos.
Todos são como ele, mesmo que poucos reflitam o bastante, não há um ser no mundo que não queira uma boa vida. E nesse mundo tão gigante, infelizmente, existem corpos tão ocos que acreditam profundamente que a vida ao redor foi criada para seu próprio ego. Não é estúpido crer num criador, até aí tem todo um sentido, porém crer que todas as belezas foram criadas para testar vidas, como se viéssemos de uma fábrica de almas e devemos passar por testes de defeitos, é bizarro. Mas ele respeita.
Afinal, dentre as lições gravadas em seus pensamentos, esta era uma das mais importantes: respeitar a todos.
Os que faltavam com respeito entregavam-se à derrota iminente, ele não precisaria intrometer-se nem ocupar seus pensamentos com sentimentos negativos.
E a mais nova lição da vida chama-se rabiscar. Ele sempre terá rabiscos de planos a fazer. Por mais tolo que pareça ser, lembrar-se de seus rascunhos fortalecerá seu resultado final, sempre. Se ao invés de estar entre simples corpos vazios ele estivesse entre corpos rabiscados, talvez o quadro fosse diferente. Talvez o cenário fosse ainda mais belo e os corpos teriam algo mais a transmitir.
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20 de agosto de 2014

Resplendor

O recomeço então mostrou-lhe as portas, todas entreabertas. Uma única vez poderá estar além de uma delas para que todas as outras possam fechar. Esse é o poder da escolha, o poder que todos os corpos vazios à sua volta ainda não enxergaram.
Aqueles que permanecem inertes perdem a chance de atravessar, pois cada porta tem seu tempo de vida, nada escapa da morte. E agora que ele atravessou, enxergou novos horizontes. E mesmo sem querer, levou-a junto ao mesmo destino. Aliás, ela sempre esteve ali, enterrada palmos adentro do lado esquerdo de seu peito. Ela sempre esteve. O vazio fora preenchido com novas oportunidades e ela sorriu mais uma vez, se escolhesse a porta errada talvez já não estivessem juntos.
E ao raiar do sol, tal resplendor guiava-no em uma direção melhor. Ou será apenas uma distração?
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