11 de setembro de 2014

Retrato

Ele a olhava nos olhos com tanta profundidade e enxergava apenas a fina camada de seu exterior.
-O que mudou? - há tempos ele se perguntava.
A amarga sensação de não ser mais tão especial o deixava triste, embora não queira tentar mais nada. O cansaço já o consumiu, por isso apenas esperava que a sensação se provasse real para tomar medidas drásticas. E à medida que explorava seu novo universo, afastava-se do dela.
Aos poucos ele entendia o quão limitado era o seu mundo e que a liberdade era somente uma ilusão. Sempre fora assim, reflexivo, mas nunca reparara que até mesmo as mentes mais insanas vivem suas próprias prisões. Talvez ela tenha se libertado, mas ao fazer isso perde-se o apoio próprio.
Ele queria agir como todos os outros corpos que acreditavam firmemente que viviam um retrato perfeito sem saber quem os pintou.
-Por que nossos quadros estão desse jeito? Por que não os outros? - ele se perguntava.
E que boa dúvida era, preocupar-se sobre seu papel naquela parede traria toda uma referência do porquê de sua existência. Mas é muito simples: ele tem a boa vida para embelezar um muro.
-Então sua existência tem como único objetivo melhorar um muro? - perguntou ela - E quanto a mim?
-Somos apenas corpos num muro. Somos apenas retratos.
-Mas vivemos bem!
-É natural achar isso sem ter conhecido nada melhor. Eu quero ser livre, ter a liberdade de conhecer cantos além desta parede.
E apesar de ela não o entender, ficou em silêncio para não decepcioná-lo. Ele acreditava nessa possibilidade de lutar com todas as forças e conseguir sair dali. Ele queria fugir.
Mas sem os corpos, o que seria dos retratos?

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