Era certo que seu olhar já não expressava suas emoções. O mundo o torturara de maneiras simples, uma mais inovadora que a outra. De quem esperava segurança recebia decepção, às vezes através de palavras cortantes, às vezes de gestos contestantes. E as dúvidas - oh, dúvidas... - o consumiam a cada segundo que ocupavam sua mente, pior que um parasita que se apropria de uma parte de seu ser: as dúvidas o corroem, expondo-o ao seu próprio mundo e eliminando-o aos poucos do ambiente.
O silêncio muitas vezes nos trás segurança, mas para ele o silêncio apenas despertava o barulho intenso que vivia em seus pensamentos. Ao lado dela, geralmente, ele se sente forte. Mas para todos os hábitos que nela admirava, uma dúvida negativa o roubava das mãos alheias. E apesar dos pesares, ele tentou guardar as dores até o dia em que tudo se explodiu em sensações irreversíveis de fúria. O ódio absoluto que fazia-o querer enterrar-se palmos abaixo da terra, acabou-se por enterrar alguém.
Se ela o ama, agora pouco importa, pois enterrara suas lembranças tão profundamente para se proteger que mal a faz sorrir. Ela sabe quando ele não está bem, porém não sabe quando naquele corpo não há mais ninguém. Um corpo oco vivendo apenas uma vida oca, loucamente ácida. Suas ambições foram sufocadas, seus desejos rejeitados e suas necessidades ignoradas. Migalhas apenas não bastam pois ele segue o padrão 8-80, do extremo simples ao extremo exagerado.
E nas trilhas casuais por causa de tais desleixos, ele encontrou-se nos outros. Notou então que todos vivem as mesmas histórias, todos vivem momentos sem razão alguma, ao menos uma vez. E então percebeu que estava ali, entre corpos ocos, e que talvez devesse abandonar tudo e recomeçar.
É, talvez, e essa seria uma ótima razão para sair da vida irracional.
#
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comentários ofensivos podem ser excluídos a qualquer momento sem prévio aviso.