-Ééééé!! Fresca até demais! O que um moleque desse faz aqui?!
-Calem-se! - berrou Sérgio, enquanto carregava Jack adentro da prisão de Lintown e atravessava a algazarra das celas - Ele fez algo pior do que seus crimes!
Jack já não tentava negar, embora nada tenha feito. De fato, a ficha ainda não caiu, seu mundo ainda estava se despedaçando. Os outros prisioneiros se entreolharam, pensando sobre o que tal garoto poderia ter feito que fosse pior que estupros, roubos e assassinatos, passando a criar um estranho interesse pelo jovem.
-Aqui não é lugar de criancinha! - berrou Richard - O que vocês pensam que estão fazendo?!
-NÃO É DA SUA CONTA! - retrucou raivosamente Sérgio.
O ódio nos olhos do oficial despertou o medo de muitos, mas não o de Richard, que estava igualmente furioso. Os motivos do detento se resumiam a um único sentimento: saudade. Jack lembrava seu filho, Henry, tomado injustamente por sua ex-esposa, a qual fora brutalmente assassinada por desviar-se das leis. Henry morreu em seus braços após levar tiros do padastro e a reação desta dor foi o genocídio da família que presenciava tal cena.
Por outro lado, Sérgio tratava Amélia como uma mãe, afinal também fora órfão. Conseguiu tornar-se oficial de um campo militar anos depois de ser adotado por uma família de ex-generais, uma situação de extrema raridade. Como todos os desprovidos de pais, Sérgio superou muitos obstáculos - desde peixes grandes que bloqueavam o rio como sereias que o seduziram para o lado oposto da correnteza. E para todos os problemas, Amélia esteve lá. Não somente para ele, para todos os órfãos que já moraram na casa dela. De fato, uma imensa perda.
-Você merecia estar morto! MORTO! - berrava Sérgio, segurando Jack pela camisa.
-Eu não...
-NÃO TEMOS PROVAS, MAS SABEMOS QUE FOI VOCÊ. - continuava ignorante.
Jack se calou. Ele não conseguia sentir culpa por algo que não fez, o que não é bom para sua infância. Se ele passasse a acreditar que matou sua própria "avó" sem sentir nenhum receio, teria o poder de matar qualquer pessoa à sangue frio.
-Este é o jovem? - disse o tenente Victor.
-S-Sim, senhor. - respondeu Sérgio.
-Venha comigo, Jack, vamos decidir em qual cela ficará até o fim do semestre.
-Fim do semestre?
-Você foi sentenciado à 10 anos de prisão. Você não achava que iria ficar na mesma cela por dez anos, certo?
-Na verdade...
-Talvez em outra prisão. Mas na prisão de Lintown, sempre mudamos os prisioneiros de celas a cada semestre para evitarmos quaisquer possibilidades de fuga. Ninguém nunca fugiu daqui, então nem tente.
-E o que vou fazer?
-Eu só sei que não irá fugir, HA HA HA! - ria insanamente o tenente, caminhando até uma sala ao final do corredor de celas.
-Quem é você? - perguntou Jack.
-Quem é VOCÊ? - retrucou Victor - Quando sair daqui não lembrará de mim e você ainda é uma criança, ainda vai se descobrir na vida. Então pergunte-se primeiro: quem é você?
Jack refletiu, pensando em responder "Eu sou Vigoroth". Mas também sabia que a pergunta ia além de seu verdadeiro nome, exigia o valor absoluto de sua natureza - o que ele também não sabia.
-Eu... Eu não sei. - respondeu Jack.
Victor parou. De todos os prisioneiros que ali apareceram, o garoto fora o primeiro a dar a resposta correta. "Só sei que nada sei" era a principal referência do tenente para a construção dessa pergunta, uma frase presente somente no universo burguês desta era. Como poderia um pobre órfão conhecer tal pensamento? A resposta é: não poderia.
-Gostei de você. - falou Victor, abrindo a porta da sala para que o jovem pudesse passar.
Canetas, papeis, caixas, lamparinas, escrivaninha, amarinhos e uma janela. A primeira visão da sala espantava qualquer criança, mas Jack entrou sem pensar. Enquanto Victor puxava uma caixa para procurar uma ficha de registro de detentos.
-Aqui. Sente-se aí e prepare-se para responder todas as minhas perguntas.
-Certo.
-Seja rápido. - pegava a caneta.
-Tá!
-Nome?
-Jack.
-Jack o quê?
-Jack... - pensava em um sobrenome, pois não tinha - Vigoroth.
-Jack Vigoroth... Idade?
-Oito.
-Oito?! Qual o crime?
-Eu não fiz nada.
-Nada? Você cometeu um crime para estar aqui.
-Eles dizem que matei minha "avó", mas não matei.
-Não posso fazer nada, garoto. - dizia Victor, escrevendo a causa.
-Nome do pai?
-Não sei.
-Nome da mãe?
-Não sei.
-E como sabe o nome de sua avó?!
-Ela não era minha avó de verdade...
-Ah, você era órfão. Desde quando?
-Desde que me lembro.
-Estado civil?
-... - Jack não sabia o que era.
-Ah, desculpa, esqueci que estava falando com uma criança.
-O que é estado civil?
-É... Como posso dizer?... É sobre... Meu deus, não sei explicar.
-Tente dar exemplos.
-Eu sou casado, meu estado civil é casado. Você é solteiro pois nunca casou.
-Ah. E se eu já tivesse casado?
-Poderia ainda ser casado ou viúvo, caso sua esposa falecesse.
-Entendi.
-Dependentes não... Er... Acho que é só isso, Jack.
-Tá, e agora?
-E agora vamos para a cela 8, em homenagem à sua idade.
Até então, Jack estava gostando de aventurar-se pelos cantos do confinamento. Sua cela era uma das primeiras, o que o levou a observar mais uma vez cada detento dali. Homens pobres, alguns fortes, outros nem tanto. Alguns pareciam até guerreiros de tantas cicatrizes, como se sempre arranjassem confusão.
-16, 14, 12, 10... 8! - terminava a contagem Victor - Esta é sua cela, vejamos quem será seu parceiro.
-Parceiro?!
-Sim, você ficará com alguém. Eu não olhei quem era para descobrirmos na hora.
-Mas...
-Não se preocupe. À propósito, sou o Tenente Victor. Se alguma vez precisar, é só chamar.
-Tenente?!
-Sou primo de consideração do Sérgio, logicamente mais velho. Como eu estava por perto, resolvi checar as coisas e tomar conta do local para que ele possa ficar de luto.
-Entendi.
-Por hoje deixaremos você usar essa roupa, pois não temos nenhuma para o seu tamanho, mas estamos providenciando.
-Victor. - uma voz chamava-o da cela oito.
-O-oi! - gaguejava-se ao levar um susto.
-Esse moleque irá ficar comigo?
-...Jack, esse é o Stevie.
-Prazer, Stevie, eu sou...
-Jack! Que nome mais simples! - interrompeu Stevie - Quantas pessoas pretende matar quando crescer?
-Stevie, pare!
-Se ele vai ficar aqui, pretendo conversar de assuntos que gosto.
-Deixe ele comigo! - berrava o detento da cela 9, em frente à 8.
-É, talvez seja melhor você ficar na cela nove, Jack... - falava Victor. - Esse aqui pode acabar te matando.
Quando o detento caminhou em direção às luzes do corredor, seu rosto ficou mais claro e um desconhecido de cabelos escuros e encaracolados, de nariz torto e olhos azuis pareceu ser sua melhor opção. Ele não demonstrava perigo, nem sequer parecia merecer estar ali. Em silêncio, Victor abriu a cela nove e mandou que Jack entrasse, sem saber o que aconteceria quando estivesse finalmente preso. O ar ficou pesado e uma estranha sensação de cometer um erro tomava conta do pequeno prisioneiro de Lintown.
-Eu sou Júlio.
-O-oi...
Era uma cela pequena, de camas afastadas e uma pia-privada no fundo. Sem mais nada, Jack previa um tédio profundo que iria durar dez anos. Infelizmente, não poderia fazer nada.
-E aí, o que você fez? - perguntou Júlio.
-Eu matei minha avó.
-Sua avó? Entendo. Eu matei meus pais.
-Seus pais?!
-Já faz 3 anos. Nunca me arrependi tanto de algo que já fiz... Se eu pudesse voltar atrás...
-Se simplesmente voltasse, nunca saberia o que é perder os pais.
-Eu sei mas...
-Eu não sei o que é ter pais.
-Cresceu com a avó?
-Não era minha avó de verdade. Eu cresci num orfanato.
-Ah. Então deve ter sido mais fácil.
-Não! Ela era a única coisa que eu tinha...
-Mal foi preso e já está arrependido?
-Não... Porque eu não matei ninguém...
-Mas você acabou de...
-Não! - interrompeu Jack - Eu quis dizer que me prenderam por achar isso.
-Mas eu perguntei o que você fez!
-Eu procurei pelo assassino e não o achei! Quando voltei, o policial me prendeu achando que teria sido eu!
-Putz, hahaha, que azar!
-Não ria!
-Hahahahahahahaha. Relaxa, cara. Não vai ser tão ruim. - Júlio levantou-se de sua cama para ir ao do colega - Nós seremos bons amigos, não?
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