Jack mostrou-se como uma criança incrível, de brilhante futuro. Estar num orfanato diminuía suas possibilidades com a sociedade, numa era onde pobres morrem pobres. Entretanto, entre anjos e demônios sempre irão existir aqueles cujas crenças não se baseiam em riquezas e conquistas. Uma dessas pessoas era a senhora Amélia, a dona do orfanato. Naquela era, as pessoas menosprezavam quaisquer crianças desprovidas de família, como se elas merecessem tal culpa. Jack notara que a vida era um pouco mais cruel ali do que no retrato, com razão, pois lá todos se cuidavam muito bem, enquanto ali viviam sob o mal alheio.
Sentir o vento, o sol, as gotas de chuva e o cheiro de terra molhada traziam sensações antes impossíveis de se sentir, o que fizera Jack se apaixonar por aquele mundo, mal sabendo que essa seria a menor das paixões que conheceria naquela vida. E era num misto de sol e chuva que um dos acontecimentos mais marcantes de sua vida aconteceu.
-Jack! Jack! Comece a colocar a mesa do almoço e vai chamar seus irmãos lá fora! - berrou Amélia da cozinha, enquanto Jack a ignorava na sala. - Jack!! Responda, menino!
Apesar de amar a natureza, Jack não gostava das crianças por serem cruéis. Porém, ele não as culpa, cresceram sob o mal-olhar de uma sociedade que alimenta-se de ódio. "Respeito gera respeito", lembrava-se Jack de uma fala constante de sua dona, Amélia. Ele sabia que ela tinha toda a razão ao falar desse jeito, porém são verdades de tempos diferentes.
-Jack!! Se você não arrumar a mesa e chamar seus irmãos irá ficar sem almoço! - berrou mais uma vez Amélia.
-Tá! - respondeu Jack, levantando-se do sofá para arrumar a mesa.
"O respeito só gera respeito quando ambas as partes o desejam." - encerrou seus pensamentos.
Ele estava para completar oito anos e sabia que o almoço seria especial por esta causa. Mas não entendia porque ele, o aniversariante, teria de arrumar a mesa. Era o mais velho entre cinco crianças, mesmo não sendo sempre assim. Paulo e Lucas eram gêmeos siameses de 4 anos, Letícia, Joana e Virgínia eram apenas amigas de 3, 5 e 7 anos, respectivamente. Os meninos irritavam Jack dizendo que ele iria se casar com Virgínia, mesmo ele não se interessando nisso. Porém, ele se incomodara com o fato da garota ser tão parecida com seu par no quadro, não somente nas aparências, mas também no olhar e no modo de falar.
-Vó! - gritou Jack, como sempre chamara Amélia - Estou indo chamar os outros!
As crianças estavam numa rua próxima dali e ele sempre levava bronca por sair e deixar a porta aberta. Desta vez, entretanto, ao voltar com as crianças, se depararam uma cena inesquecível.
-Vó!!!! - berrava Jack.
Dona Amélia estava morta. Golpes de faca, seis ao total. As outras crianças viraram estátuas, enquanto Jack procurava pelo assassino mesmo completamente desarmado. Quando Paulo e Lucas começaram a chorar, não levou muitos segundos para todos começarem a gritar e cair em prantos. A cavalaria da polícia passava por ali e notara o barulho na casa.
-O que está... - falava o oficial Sérgio, interrompido pelo choque ao ver a cena - ...Meu deus! Flávio, corra para a delegacia e chame uma patrulha!
-Sim, senhor! - partiu à cavalo Flávio, o ajudante do oficial.
-Crianças, o que houve aqui? - tentava interrogar, sem sucesso, pois nenhuma delas conseguia falar.
Aí então que surgiu Jack, dos fundos, com o olhar furioso de alguém que pretendia matar outra pessoa. Esse olhar mal compreendido fez o oficial crer que o jovem filósofo teria planejado aquela morte, imediatamente agindo para prender o pequeno suspeito.
-O que está fazendo?! - perguntava Jack, enquanto era algemado.
-Você está preso!!! Como pôde fazer isso?! Dona Amélia era uma pessoa ótima para todos!! Ela respeitava a todos!! - berrava o oficial, controlando a vontade de puxar sua espada militar e vingar a morte da senhora - Você vai pagar!! Vai passar o resto da sua vida na cadeia!
-Mas eu não fiz nada!!! - berrava Jack - Contem a ele!! Contem a ele!! - pedia o apoio das crianças.
-Jack... - falava Virgínia - Você estava sozinho com ela...
Então Jack percebeu que não teria escapatória. Foi o último a vê-la viva, inteira, então seria natural que a culpa caísse sobre sua cabeça. Naquela era, ninguém perderia seu tempo investigando a inocência de uma criança sem pais, sem um sobrenome importante. Qualquer culpado serviria, ele somente acabou, por azar, sendo o mais convincente. Todo o seu destino mudou naquele misto de sol e chuva em que fora levado à força para uma prisão. O mais jovem prisioneiro de Lintown.
17 de novembro de 2014
O prisioneiro de Lintown
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